Requalificação de imóveis abre oportunidades para pequenos negócios em Curitiba
O Hotel Cacique, no centro de Curitiba, está passando por requalificação. Foto: Imobiliária Losso
A recuperação de edifícios antigos pode representar uma oportunidade para movimentar a economia de Curitiba, especialmente na região central. Projetos de retrofit e requalificação mobilizam diferentes setores, da arquitetura e engenharia à restauração, instalações e serviços especializados, abrindo espaço também para a atuação de micro e pequenas empresas.
Esse será um dos temas do 2º Fórum Setorial EloHabitar, em Curitiba, no dia 11 de novembro, com o tema “A Cidade Existente como Oportunidade”. O evento é da Governança EloHabitar, movimento colaborativo de Curitiba que reúne iniciativa privada, poder público, instituições de ensino e sociedade civil para discutir desenvolvimento urbano, inovação na construção civil e mercado imobiliário.
A discussão considera o potencial de aproveitar a infraestrutura urbana já instalada e dar novos usos a edificações existentes. Iniciativas públicas de incentivo à recuperação da região central, como o Programa Curitiba de Volta ao Centro, também podem contribuir para ampliar as possibilidades de investimento.
“Quando uma política pública estimula retrofit, recuperação e novos usos para imóveis existentes, movimenta-se uma cadeia ampla: projetos de arquitetura e engenharia, reformas, instalações, materiais, soluções técnicas e tecnológicas, manutenção, serviços especializados, avaliação e operação imobiliária, entre outras atividades”, explica Rodrigo Melo Viana, consultor do Sebrae/PR.
Segundo ele, a diversidade de serviços necessários cria oportunidades para empresas de diferentes portes, desde que estejam preparadas para atender às demandas técnicas e trabalhar em parceria com os demais agentes do setor.
Para Juliana Schützemberger, arquiteta e urbanista, conselheira do Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Paraná (CAU/PR) e integrante da comissão diretiva da EloHabitar, a requalificação também representa uma oportunidade de aproveitar melhor a estrutura urbana já existente.
“Requalificar não é simplesmente reformar um edifício antigo. É criar condições para que ele volte a ter função e relevância dentro da cidade”, afirma. Para ela, a transformação dos imóveis pode contribuir para a retomada da vitalidade do Centro, com novos usos residenciais, comerciais e de serviços.
Hotel antigo terá novo uso residencial
Um exemplo desse movimento é o antigo Hotel Cacique, no Centro de Curitiba, que passa por um processo de requalificação para se tornar o Edifício Marco Zero, empreendimento residencial voltado à locação de longa duração.
A oportunidade de aquisição chegou à Imobiliária Losso por meio do coletivo O Centro. A empresa apresentou o imóvel a potenciais investidores e participou da articulação que resultou na compra.
A escolha do novo uso considerou estudos técnicos, urbanísticos e econômicos, incluindo as condições da estrutura, as restrições relacionadas ao tombamento e a demanda por moradia na região central.
“A opção pela moradia de longa duração decorreu da percepção de que existe espaço para ampliar a presença residencial qualificada no Centro da cidade, aproveitando a infraestrutura urbana já existente e contribuindo para uma ocupação mais permanente e ativa da região”, afirma André Thiago Losso, do ramo imobiliário.
O projeto arquitetônico está concluído e passa por análise dos órgãos responsáveis pelas aprovações e licenças. A aquisição do imóvel ocorreu há mais de dois anos, período em que foram realizados estudos e levantamentos necessários para viabilizar a intervenção.
Para Losso, um dos principais desafios desse tipo de empreendimento é conciliar os prazos e as incertezas do processo com as expectativas dos investidores. “Intervenções em imóveis históricos exigem visão de longo prazo, capacidade financeira e disposição para enfrentar processos complexos”, avalia.
Outro exemplo é o Edifício Governador Parigot de Souza, que receberá a nova sede do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Paraná (CREA-PR), também no Centro de Curitiba. O projeto prevê a requalificação da estrutura existente, com preservação da fachada original e incorporação de soluções contemporâneas de engenharia, tecnologia e sustentabilidade.
Conhecimento técnico e trabalho multidisciplinar
A requalificação também exige profissionais com conhecimentos específicos. No projeto do Marco Zero, o escritório de arquitetura responsável, Estúdio PR Arquitetura, liderado por Carlos Kffuri, realizou levantamentos técnicos e históricos, análises estruturais e pesquisas sobre os materiais e as características originais da edificação.
O trabalho identificou elementos construtivos de diferentes períodos, alguns com origens que remontam ao final do século XIX.
“Diferentemente de uma construção convencional, em que as soluções são concebidas a partir de condições previamente definidas, a requalificação exige que cada decisão de projeto considere as limitações e potencialidades da estrutura existente, buscando conciliar preservação patrimonial, segurança, viabilidade técnica e funcionalidade contemporânea”, explica Kffuri.
Além de arquitetos, projetos desse tipo envolvem engenheiros estruturais, especialistas em instalações elétricas e hidrossanitárias, prevenção de incêndios, restauração e conservação de edificações antigas.
Essa diversidade abre espaço para fornecedores e pequenos negócios, mas também exige qualificação e capacidade de atuação integrada. Para Juliana, uma das oportunidades está justamente na possibilidade de participação de empresas especializadas em etapas específicas, sem a necessidade de assumir uma obra inteira.
“Um único edifício pode demandar diferentes competências ao longo do processo, criando espaço para escritórios, prestadores de serviços, fornecedores e pequenas empresas especializadas atuarem de forma complementar”, destaca.
Na avaliação da conselheira do CAU/PR, levantamentos, estudos de viabilidade, consultorias, regularização, licenciamento e serviços de execução, como instalações, impermeabilização, esquadrias e acabamentos, são algumas das atividades que podem integrar essa cadeia.
Governança da EloHabitar se reúne para discutir iniciativas na construção civil e no mercado imobiliário. Foto: Arquivo Pessoal
Governança reúne diferentes setores
É nesse contexto que atua a Governança EloHabitar, que busca articular diferentes agentes e desenvolver iniciativas voltadas à inovação, sustentabilidade e competitividade da construção civil e do mercado imobiliário.
A Governança EloHabitar reúne 30 integrantes: Ademi-PR, Agência CWB, ASBEA-PR, Andrea Barros, Arbo, BS Arquitetura, CAU/PR, Carlos Osternack, CREA-PR, CVI-PR, Daher, Empatheia, Estúdio Convexo, FAE, iCities, IDD, Ígnea, Ione Bertoncello, Ippuc, Prefeitura de Curitiba, Proa Arquitetura, REACH, Sebrae/PR, Secovi-PR, Sinduscon-PR, Stecla, Rede Uma, UTFPR, VBL Engenharia e Voigt Construtora.
A partir do Mapa Estratégico EloHabitar 2025–2030, estão em desenvolvimento projetos como um catálogo de soluções inovadoras, o protótipo da ferramenta Lente Territorial, um diagnóstico de sustentabilidade e o Selo EloHabitar – Competências que Transformam.
As iniciativas estão em diferentes estágios de desenvolvimento e buscam contribuir para a qualificação das empresas e a melhoria do ambiente de negócios. A governança não atua como intermediadora comercial, mas trabalha na construção de soluções e instrumentos de interesse coletivo.
Para Juliana, a aproximação entre poder público, profissionais, empresas e instituições de ensino é fundamental para que os desafios da requalificação sejam enfrentados de maneira conjunta. “O papel de uma governança setorial não é necessariamente ter todas as respostas, mas criar condições para que os diferentes atores, que possuem diferentes partes da resposta, consigam trabalhar em conjunto”, afirma.
O 2º Fórum Setorial EloHabitar será realizado em 11 de novembro de 2026, das 9h30 às 17h, no Sebrae/PR, localizado na Rua Cyro Vellozo, 59, em Curitiba. Com o tema “A Cidade Existente como Oportunidade”, o evento tem inscrições gratuitas, disponíveis pelo Sympla.
